• pic2
  • pic3
  • pic4
  • pic5
 
 
ARTIGOS TÉCNICOS
 
Cadê o pasto?
 
Fevereiro e março as épocas ideais para a aplicação de herbicidas - Ricardi Victoria Filho
 

A implantação das pastagens e o sistema de manejo utilizado de uma forma inadequado levam a ocorrência de plantas daninhas no ecossistema de pastagens, que, de um modo geral, são constituídas por plantas arbustivas e arbóreas. Algumas gramíneas não desejadas também podem representar ameaça para a produtividade. Sorghum halepense (L). Pers (capim-massambará) e Andropogon bicornis L (capim-rabo-de-ouro) podem necessitar de manejo adequado por apresentarem características semelhantes às espécies usadas como forrageiras.

 
No Brasil, existem diversos levantamentos realizados sobre as plantas daninhas em pastagens. Um dele, inclusive, aponta que os pastos na Amazônia apresentam uma lista de 266 espécies pertencentes a 54 famílias e 168 gêneros. Outro estudo mostra que no Pará existem 144 espécies catalogadas. A região Norte no Brasil é a que mais sofre prejuízos com plantas tóxicas. Estima-se que 80% das mortes de bovinos adultos na região Amazônica são creditados a Palicourea marcgravii, conhecida popularmente por “cafezinho”. Diversos fatores influenciam a dinâmica de população destes inimigos em pastagens no Brasil. Os principais são:
 
- Adaptação da gramínea forrageira – Pastagens com gramíneas pouco adaptadas às condições de elima e solo, geralmente, não produzem biomassa suficiente para ocupar todo o espaço. Assim, com o tempo, ele vai sendo tomado pelas invasoras.
 
- Alta pressão de pastejo – A superlotação causa degradação do pasto e aumenta a intensidade de infestação da juquira, principalmente na estação chuvosa.
 
 
-Fertilidade e umidade inadequadas – Unidades, bem como fertilidade inadequada a cada espécie forrageira na implantação e na manutenção da pastagem, auxiliam na ocupação de toda a superfície do solo.
 
- Controle inadequado das plantas daninhas – a germinação da espécie forrageira ocorre juntamente com a das plantas daninhas presentes no solo. O mesmo vale para o rebote.
 
Danos - A competição é o primeiro dos principais prejuízos causados. As plantas daninhas disputam água, luz e nutrientes com o pasto. Torna-se um fator crítico quando se estabelecem junto ou primeiro que a forrageira. Em dias quentes, não é raro ver as plantas forrageiras murchando enquanto as plantas daninhas estão túrgidas, sem sinal de déficit hídrico.
 
Um dos fatores para esta situação é a taxa de exploração de volume do solo pelo sistema radicular, como ocorre com a ciganinha e o assa-peixe.
 

Elas também roubam luz. A competição por luz dá-se quando as invasoras provocam sombreamento na espécie forrageira. As mais competitivas são aquelas com maior área foliar, com folhas bem distribuídas e arquitetura mais adequada para interceptação de luz. Um sombreamento de 90% a produção de sementes e 40% de sombreamento faz este número cair para 45%.

 

Assim, é muito importante, na implantação da espécie forrageira, que ocorra uma densidade adequada para provocar sombreamento nas plantas daninhas anuais.

 

A competição por nutrientes é outro grave problema. Fica mais acirrada quando a disponibilidade no solo é limitada. As plantas daninhas são mais eficazes na absorção. O nitrogênio é o primeiro nutriente a se tornar se escasso, na maioria das vezes.

 

A adubação nitrogenada nem sempre aumenta a produção da espécie forrageira, pois quando a densidade das invasoras é muito alta pode até potencializar a competição. As plantas daninhas provocam redução na produção de forragem, com conseqüente diminuição na capacidade de suporte, que passa a concentrar menor número de animais por área.

 
A intoxicação dos animais por plantas tóxicas é o mais sério prejuízo.
 

No Brasil, o número de cabeças que são perdidas por ano é bastante elevado. A maioria das plantas venenosas causa intoxicação quando ingerida uma única vez, todavia algumas somente quando a ingestão ocorre por dias seguidos. É muito importante reconhecer estas plantas e adotar as medidas possíveis de prevenção e erradicação.

 

Tabela 1. Número de sementes de plantas daninhas na camada superficial do solo (15cm) em diferentes habitats. Cook (1980)

Tipos de habitat

Número de sementes/m2

Solos agricultáveis

34.000 – 75.000

Pastagens naturais

9.000 – 54.000

Pastagens formadas

2.000 – 17.000

Áreas abandonadas

1.200 – 13.200

Áreas de culturas tropicais

7.600

Áreas com sucessão secundária

1.900 – 3.900

Florestas tropicais naturais

170 – 900

Pradarias

300 – 800

Florestas implantadas

200 3.300

 Neste gênero, Palicourea marcgravii, conhecida como cafezinho ou erva-de-rato, é a planta tóxica mais importante do Brasil, devido a sua extensa distribuição, boa palatibilidade, alta toxidez e efeito acumulativo. Na região Amazônica, onde são registrados metade dos casos de bovinos vitimados por plantas tóxicas no Brasil, ela é responsável por 80% de todos os óbitos.

 

Muitas plantas daninhas apresentam espinhos que promovem ferimentos e também dificultam o acesso à espécie forrageira pelos animais. Os ferimentos nos tetos podem provocar mamites e conseqüente queda na produção, no caso da pecuária leiteira. Ainda  prejudicam a coloração e provocam odor no leite, reduzindo sua qualidade.

 

Além de efeitos diretos, as plantas daninhas favorecem o aparecimento de parasitas externos, como carrapatos e bernes. Por último, favorecem a erosão e prejudicam a fertilidade do solo, especialmente em áreas degradadas. O manejo adequadoé resultante de uma combinação entre medidas preventivas, de controle  e erradicação

 
Medidas preventivas - Consiste na adoção de ações que impeçam ou minimizem a introdução e disseminação de plantas daninhas na área. Como exemplo, o uso de sementes de qualidade idônea é muito importante no estabelecimento da espécie forrageira e evita a introdução de novas espécies na área. É importante consultar a legislação vigente sobre as sementes nocivas proibidas e toleradas em gramíneas e  leguminosas forrageiras.
 
Controle cultural - O controle cultural tem uma importância fundamental na manutenção da pastagem, evitando os danos provocados pelas plantas invasoras. Seria a utilização de qualquer prática que viesse a auxiliar a espécie forrageira na ocupação do solo disponível, proporcionando-lhe maior habilidade competitiva com as plantas daninhas. Os principais exemplos são:
 
- Uso de semente de qualidade, livre de plantas daninhas;
- Manejo adequado do pasto deixando reserva fisiológica adequada;
- Espécies forrageiras devem estar adaptadas às condições de clima e solo do local;
- Consórcio de gramíneas e leguminosas permite uma ocupação mais rápida da superfície do solo, diminuindo a infestação das plantas daninhas;
- Uso adequado da adubação, permitindo melhor desenvolvimento das espécies forrageiras.
 
Controle mecânico - O controle mecânico é realizado com a utilização dos seguintes equipamentos: foice, roçadeira, correntão, rolo-faca e trilho. O uso de cada tipo de equipamento depende do tipo de vegetação, do porte e da densidade de infestção. As plantas arbutivas que infestam as pastagens, de um modo geral, são perenes e têm a capacidade de regenerar a parte aérea quando cortadas.
 
A utilização da foice é muito comum ainda, todavia, por necessitar muita mão de obra e ocorrer a reinfestação rapidamente, muitos fazendeiros estão reavaliando os custos
 

O uso da roçadeira fica restrito a áreas destocadas e de declividade adequada. O momento deve ser oportuno de tal modo, a reduzir o corte da espécie forrageira. Portanto, deve-se baixar o pasto com o pastoreio e utilizar de preferência no início do período chuvoso. A umidade disponível irá propiciar uma recuperação rápida da gramínea forrageira, dificultando o rebrote da juquira.

 

O fogo não é recomendado, mas ainda é uma prática bastante utilizada em pastagens no Brasil. Para que haja um controle adequado dos arbustos, há necessidade de uma boa massa de capim para desenvolver temperaturas elevadas, que possam eliminar os arbustos mais desenvolvidos. Muitos dos arbustos nativos de porte mais alto sobrevivem, pois são tolerantes.O fogo é um meio barato e fácil de eliminar arbustos de pastagens, todavia, o seu uso não é recomendado, considerando os aspectos ecológicos e agronômico. A queima traz implicações ambientais, poluindo a atmosfera, sendo recomendado o uso controlado em todas as áreas agrícolas do mundo. Sob o aspecto agronômico, diminui o teor de matéria orgânica no solo, provoca a perda de nutrientes como nitrogênio, fósforo e enxofre, que seriam incorporados ao solo, além de provocar a redução do pH.

 
Controle biológico - O método de controle biológico consiste na utilização de inimigos naturais como insetos, fungos, bactérias, ácaros, vírus, peixes, aves e mamíferos. No Brasil, não há nenhum exemplo de uso prático em pastagens.
 
Controle químico - O controle químico é realizado com a utilização de herbicidas. Esses produtos devem controlar os arbustos e serem seletivos ás gramíneas forrageiras. Essa seletividade é devido a aspectos morfológicos das plantas como também à habilidade da gramínea forrageira em degradar metabolicamente parte do herbicida que é absorvido (seletividade bioquímica).Os herbicidas utilizados em pastagens, de modo geral, são sistêmicos, ou seja, após a absorção necessitam ser translocados até o local de ação na planta daninha. A folha é a principalmente via de penetração.
 
Herbicídas -O êxito numa aplicação de herbicida em pastagens será obtido quando forem seguidas as seguintes etapas:

    - Identificação das espécies – O primeiro passo é um levantamento das principais espécies que predominam na pastagem e o conhecimento, se possível, de alguns aspectos da biologia dessas plantas.

    - Escolha do herbicida – Deve ser feita levando-se em consideração a sensibilidade das principais espécies presentes aos produtos disponíveis no mercado. As principais moléculas de herbicidas disponíveis são 2,4 –D picloram, dicamba, tryclopyr, fluroxypir, tebuthiurom e aminopyralide. Essas moléculas são encontradas para venda em mistura ou isoladamente. Verificada a sensibilidade, o passo seguinte é o aspecto de custo. Também é importante levar em conta a formulação do produto a ser utilizado. Os principais herbicidas para aplicação à folhagem em pastagens podem ser encontrados nas formulações amina e éster. Cuidado especial precisa ser tomado com a formulação éster quando se tem, próximo da propriedade, cultura de outras plantas sensíveis, como algodão, tomate, uva, fumo, banana, hortaliças, etc.

    - Escolha do equipamento – O equipamento, como também a calibração, são aspectos importantes para o sucesso do controle químico. Muitas das falhas do controle ocorrem devido à aplicação de subdoses ou dosagem muito acima da recomendada.

    - Condições ambientais na aplicação – O primeiro aspecto é o estágio de desenvolvimento. A planta daninha deve ter porte adequado para absorver uma quantidade que possa ser translocada até o sistema radicular e provocar-lhe morte. Além disso, deve estarem crescimento ativo. Os demais aspectos ambientais que influenciam na absorção do herbicida foram comentados anteriormente.

 

Principais produtos - Os principais herbicidas registrados para uso em pastagens no Brasil são os seguintes:

a) 2,4-D – ácido 2,4-diclorofenoxiacético – marcas comerciais diversas: DMA 806 BR (amina), Herbi D480- (amina), Aminol 806 (amina), U46D – Fluid (amina) e Capri (amina). O 2,4-D é utilizado isoladamente no controle de plantas daninhas de pastagens bastantes sensíveis (plantas moles). Seu uso maior é em associação com as moléculas de picloram, ou dicamba, ou triclopyr.

b) Picloram – ac. 4-amino – 3,5,6 tricloropicolinico – marcas comercias: TORDON/2,4-D – 64 g e.a/l de picloram + 240 g e.a/lde 2,4-D; PADRON – 240 g e.a/l de picloram; MANNEJO – 40 g e.a/l de picloram + 120 g e.a/l de 2,4-D; DONTOR – 22,5g e.a/l de picloram + 360 g e.a/l de 2,4-Dl. A mistura picloran + 2,4-D (Tordon/2,4-D) tem sido bastante utilizada em pastagens no Brasil, e o herbicida picloran (PADRON), isoladamente, tem sido mais indicado para aplicação no toco.

c) Triclopyr – ác. [(3,5,6-tricloro)-2-piridinil)oxi] acético. – marcas comerciais: TOGAR (triclopyr + picloran + 2,4-D); GARLON (triclopyr) – 480 g e.a/l;

d) Tebuthiuron – N-[5-(1,1-dimetiletil)- 1,3,4-tiadiazol-2-il]-N-N-dimetiluréia; - marca comercial: Graslan 100 – 100 g/Kg;

e) Fluroxypyr – [ (4-amino-3,5-dicloro-6-fluoro-2-piridini)oxi] acético;- marca comercial: STARANE 200-200 g e.a/l de fluroxypyr; PLENUM – 80 g e.a/l do fluroxypyr + 80 g e.a/l de picloram; TRUPER – 80g e.a/l de fluroxypyr + 240 g e.a/l de triclopyr;

f) Aminopiralide – marcas comerciais: JAGUAR – 40 g.e.a/l de aminopiralide + 320 g e.a/l de 2,4-D; DOMINIUN – 40 g e.a/l de aminopiralide + 80 g e.a/l de fluroxypyr.

g) Gliphosate – N-(fosfonometil) glicina – utilizado em áreas de renovação de pastagens em aplicação de pré-plantio da nova espécie forrageira na área.

 
As recomendações básicas dos produtos encontram-se em boletins técnicos de cada companhia. O controle específico de determinadas palmáceas tem sido conseguido com a aplicação na gema central de doses exatas, que dependem do porte da planta. Após a análise específica das plantas e escolha do herbicida, deve-se procurar contar com o acompanhamento da equipe técnica na aplicação. O herbicida se constitui numa ferramenta útil desde que utilizado sempre em associação com outros métodos de controle disponíveis, principalmente preventivos.
 
Literatura citada - COOK,R. The biology of seeds in the soil. In: SOLBRIG, O.T. (Ed) Demography and evolution in Plant Populations. University of California Press, Berkeley, p. 107-129,1980.
DANTAS, M & RODRIGUES, I.A.Plantas invasoras de pastagens cultivadas na Amazônia. Belém. Centro de pesquisa Agropecuária do Trópico úmido. Boletim de pesquisa no. 1.1980.23p.
DUTRA. I. dos S. Sanidade permitirá que pecuária ele rentabilidade. Visão Agrícola, no.3, Jan/Jun/2005.p 28-31.
EVANGELISTA, A.R.; CARVALHO, M.M. de; CURI, N. Uso do fogo em pastagens. In: Simpósio sobre ecossistema de pastagens. 2, Anais, FUNEP, Jaboticabal, p. 9-10, 1996.
MACEDO, M.C.M. A utilização do fogo e as propriedades físicas e químicas do solo. In: Simpósio sobre manejo de pastagens. 12. Piracicaba, Anais, FEALQ, Piracicaba. 1995, p. 315-345.
TAKARNIA, C.H.; DOBEREINER, J.; PEIXOTO, P.V. Plantas tóxicas do Brasil, Editora Helianthus. 2000. 320p.
VICTORIA FILHO, R. Controle de plantas daninhas em pastagens, In: PEIXOTO, A.M.; MOURA, J.C. de; FARIA, V.P. Pastagens na Amazônia. FEALQ. 1986. p.; 72-90.
VICTORIA FILHO, R.; LIMA, J.F. de. Controle do capim-braquiaria (brachiaria decubens stapf) na implantação de algumas gramíneas forrageiras. In: XIV Congresso de La Asociacion Latinoamericana de Malezas (ALAM) E XXIX Congresso de La sociedad Colombiana de Control de Malezas y Fisiologia Vegetal (COMALFI), Cartagena de índias, Colômbia, p.91, 1999.
VICTORIA FILHO, R.; CORSI, M.; BALSALOBRE, M.A.A.; SANTOS, P.M.; LADEIRA, A.; SVICERO, E.F. Determinação do período crítico de interferência de plantas daninhas na implantação de pastagem de Brachiaria brizantha. In: XV Congresso de La Asociacion Latinoamreciana de Malezas e X Jornadas Venezolanas Científico Técnicas em Biologia y Combate de Malezas. Venezuela. 2001, p.118.
ZINDHAL, R.L. Fundamentals of Weed Science. Academic Press Incorporation California, 199.556 p.
ZIMMER, S.H.; EUCLIDES V.P.B. Importância das pastagens para o futuro da pecuária de corte no Brasil. In: Simpósio de Forragicultura e pastagens: Temas em Evidência, Lavras, Anais. P. 1-51,2000.*Prof. Dr. Da Àrea de Biologia e Manejo de Plantas Daninhas da ESALQ/USP (Pitacicaba-SP) – rvictori@esalq.usp.br
 
Voltar